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Nudez
O mundo vinha lhe tirando a roupa. Mesmo não querendo a cada dia que passava a sensação é que ele tinha muito menos, muito menos de quando iniciou. Tudo que o mundo não conseguia mesmo lhe levar era essa sua vontade compulsiva de pintar. A sua loucura. O seu drama. O seu cruzeiro, a sua encruzilhada. O mundo sabia que mesmo levando seus dedos nada disto teria um basta. Pintava mesmo com os olhos e quanto mais as coisas ficavam escuras, mais o ver da sua pintura ficava claro.
Colocava-se em pelo para ela. Para que soubesse das suas fragilidades, das suas monstruosidades, do seu forte. Do que é e do que não é.
Quando a luz já estava quase sem luz se perguntava se ela saberia o que fazer? O que fazer com esse homem nu coincidentemente no dia do seu aniversário? Essa não reserva. Esse planeta marte-me. Esse Afeganistão pedindo paz. Essa África com fome de amor. Saberia ela o que fazer? Sabia que traria afeto. Traria a-feto e é tão necessário renascer. Seja no Brasil, na Jamaica, em Dakota ou em Madri, seja do lado daqui ou dali, o fim sempre é o inicio do começo.
Antes essa nudez fosse um presente - refletia. Uma nudez que trouxesse sexo, dança, prazer, junção. Mas, não é. Essa nudez hora apresentada estava carregada de passado, de coisas que foram e não voltaram, de passaportes sem permissão, de circos sem palhaço.
Mas se pensasse que esses dias foram de depressão estaria redondamente enganada e num piscar de olhos lá estaria ele novamente com seu grande capote negro. Algumas lágrimas, porque chorar é composição e não decomposição, mas não depressão. É evidente que saberia a diferença de uma coisa e de outra. Ela sempre se posicionou de forma tão inteligente, não seria logo agora o momento de sua cegueira.
Nessa sua nudez há com certeza uma natureza que resiste a toda essa roupagem, essas vestes, essas formalidades. Esse país de Alices, esses Lamas da Lama, esses Sacerdotes com dotes. Por certo nunca desejou ser um sultão imbuído de se cobrir de riquezas, jóias e palácios. É mesmo um andarilho eufórico para poder caminhar em liberdade, sujar suas mãos nas cores das estrelas e ter apenas o céu como tela. Um Andaluz em busca da sua dançarina. Da sua mulher dançarina. Da sua vida Dançarina. Do seu prazer dançarino.
É este cigano que sem vestes ele oferta para ela. Esse cigano amável. Soberano diante de seus próprios dissabores. Orgulhoso em suas queixas e oriental em suas gueixas. Um cigano que resiste ao presente porque não crê em passado. Esse cigano que canta para ela, canções nuas de amor.
Feira
Nem tão santa, nem tão freira.
Feira toda semana, a semana inteira. Feira dos sonhos, de quem ainda não escreveu, daquele que já é escritor, daquele que o mundo ainda não leu.
Feira da Isabel, de tantas Anas, de Inácios, da Dê que só sabe se conto, mas nunca esquecendo do anjo Quintana. Feira que a vó leva seus netos, que a tia sem casamento leva os sobrinhos, que o pai leva o filho. Que os que não vão ficam em casa esperando que os que vão lhes traguem as novidades.
Feira de quem aparece sozinho para namorar, para sonhar essa poesia que há em cada dia.
Feira do livro, sempre um Porto Alegre.
Moedas
Crianças que buscam moedas nas sinaleiras. Acredito que não seja uma particularidade desta cidade que deveria ser Porto Alegre, mas para elas é Porto Solidão.
Esperar.
Tempo solitário. Olhando para as luzes da rua. É sempre uma coisa crua esperar. Temos que esperar o sim, o emprego, o amor. Nos cansamos de esperar. Esperamos aquele presente que a tia não trouxe no dia do aniversário e jura que no próximo encontro trará.
É espera daqui e esperar dali. Espera-se um almoço com alguém que faz dez anos que não vemos. Um horário na agenda da cabelereira. Espera-se ser padrinho algum dia. Tempo que não passa. Que não anda. Tempo que dá vontade de ir no banheiro, tomar mais um café e para os fumantes, tempo que se fuma muito além do normal. Tempo de andar de um lado para o outro no escritório, na sala de maternidade, na fila do caixa, na lista de espera para o doutorado. Tempo que se faz um buraco no carpete, no areião da praia, arraiâ-se a mesa com as unhas. Esperar sentado na calçada contando as formiguinhas que carregam suas folhas para alimentar seu povo.
Tempo de não esquecer que também há tempo para ser cigarra. Ser obstinado, mas não esperar muito tempo para tirar férias. Esperar nove meses para ser mãe. Esperar para ver o bebê nascer saudável. Esperar a febre baixar. Esperar o menino vencer sua dificuldade para se alfabetizar. Esperar o torcicolo sumir. Esperar o pessoal vir e concertar a rede elétrica, os vazamentos. Esperar o dólar subir ou o dólar cair. Esperar ela partir ou ele chegar, ela chegar ou ele partir. Esperar que a vida mude e alguém nos de bola. Esperar o gol. Aceitar o impedimento. Esperar a vez. Esperar a reserva.
Como envelhecemos rápido. Como amadurecemos devagar. Tempo para ver o por-do-sol. Tempo para ver o sol nascer. Esperar um dia fazer sucesso. Esperar os filhos irem para faculdade. Tempo para ir em casa e ver se a vó está bem. Tempo para cuidar da nogueira. Esperar que os irmãos tenham sempre o melhor da vida. Esperar que alguém espere por nós: no aereoporto, na cama, debaixo dos lençóis, no restaurante, para tomar um café expresso.
Não dá para ir se o coração diz para ficar. Esperar pelo beijo e o seu sorriso matreiro nas terças e quintas. Esperar se vai sair a bolsa. Esperar que ela volte da França. Esperar os dois chegando do Rio de Janeiro. Esperar que esse agora seja um bom marido pra ela. Até porque ela esperou tanto. Esperar que a única doença dele seja essa pinguinha de vez enquando.
Tempo para acreditar que a paz vale a pena. Tempo para ouvir música. Tempo para não se abrir mão de que haja vida após a morte. Ela morreu tão cedo. Não encontrá-la nunca mais é tempo demais.
Esperar que o tempo do nada seja completo. Esperar que o tempo vazio seja preenchido. Esperar o inesperado. Esperar ter acertado e quando se agiu errado descolar um tempo para pedir desculpas. Esperar a água para lavar. Esperar o fogo para queimar. Esperar a terra para florescer. Esperar o ar para ir.
Todo tempo é tempo para tentar de novo. Todo tempo é tempo para fazer a chama arder. Todo tempo é tempo de colheita. Todo tempo é tempo de se oxigenar. Esperar que mesmo esperando não se esteja parado.
Costuras.
Costuravam pedaços das suas vidas enquanto a chuva, pelo lado de fora costurava pequenas poças de água na rua. Podiam colocar juntos a linha na fresta da agulha mesmo de olhos vendados. Até cegos podiam ver como era grande a sua intimidade, as confissões, os respiros, os suspiros que iam acontecendo naquele tear de sol e lua.
O guarda-chuva para dois os colocava viventes do pequeno ambiente. Por duas vezes pousou suas mãos sobre as costas dela, como um beija-flor pousa seu bico em uma flor e ela aceitou, talvez aceitasse mais, mas ele não ousou.
Os alfaiates ainda existem, mas onde estarão agora? O poder da velocidade não combina com o poder do cortejar. Eles não tinham nenhuma riqueza além do que continham neles.
Amanhã é manhã para todos. Mesmo eles tendo nascido num pequeno lugarejo, com grandes dificuldades, onde a maioria das pessoas não anda de calça jeans e camisas a pronta-entrega. Mesmo que em certas épocas do ano os homens passem de cabeça baixa com vergonha do céu e as mulheres olhem para cima com medo que a terra de uma hora para outra resolva as tragar – desenham seus sonhos.
Se não podemos imaginar como eles têm ainda cabeça para amar, também se tivessem como bisbilhotar nossas vidas não iam imaginar como temos cabeça para sofrer.