Calda de Amoras

Escritor de canções

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Terra Blog

Arquivo de: Fevereiro 2007

26.02.07

Platonicidades

Platonicidades

    Basta-me vê-la. Dou ação de graças que sei o seu primeiro nome. Quem não viveu um grande amor que não se sabia nem onde encontrá-lo, que não se tinha se quer o seu endereço para enviar uma carta anônima. Um grande amor de sobrenome velado, um grande amor de destino velado, um grande amor com uma vida velada. Quem não viveu um grande amor que como do nada surgiu e pelo nada surpreendentemente poderia entrar pela porta.

    Ligasse da rodoviário dizendo que tinha chegado. Um amor que esperávamos anciosamente um sinal, um telefonema, um escrito nos vidros do carro, um cartão de visita embaixo da porta. Então daí poderíamos nos permitir as coisas mais impertinentes e loucas. Nós loucos de amor pela rua, nós loucos de amor no Ibirapuera, nós loucos de amor na Redenção, nós loucos de amor na Lagoa. Sair atrás desse amor no guia telefônico, ir à lugares esperando esbarrar coincidentemente com ele.

    E o amor ali sentado, a nossa espera, no nosso aguardo. Um encontro clandestinamente marcado pelos anjos. Desistir de compromissos e permanecer mais tempo no trabalho, pois ele poderia passar embaixo da nossa janela. Um amor que os encontros mais reais foram em sonhos, os beijos mais reais foram em sonhos, as declarações mais reais foram em sonhos. Quantos pecados aquele despertador cometeu com o nosso amor. Os tempos de hoje são tão hipermodernos, tão alucinantes, mesmo em eras de contatos virtuais, são acessos com necessidade de tantas construções. Há tão pouco espaço na sociedade do ficante, do para agora, do imediato, dos interruptores, onde o enter e o delete são acionados com tanta facilidade. É tanta gente regida pela lei de Maomé, ver para crer ou crer para ver. Qualquer coisa do genêro, mas um genêro sempre definitivo, descimal, minuciosamente controlado, estatisticamente comprovado.

    Terapeutas, marxistas, liberalistas, weberianos, estruturalistas, hipocondriacos, realistas, concretistas, racionalistas, imperialistas não toque nesse meu amor. Deixem-nos viver nossas platonicidades.

  • criado por  srbazetti criado por srbazetti
  • Postado em 19:01:43

14.02.07

Seios

    Desde pequeno gostei de seios. Não por inveja, mas porque me causavam curiosidades. Algumas vezes imaginei que pudessem ser um incomodo. Outras vezes pensei em entretenimento, mas na maioria delas sempre vi como beleza. Era nessa beleza que curiosamente sempre cuidei de canto de olho quando as mulheres se debruçavam nos balcões, quando usavam blusas brancas, quando seus sutiãs eram um número a menos e seus seios estavam lá como Pão de Açúcar. E quando chovia. A chuva dá aos seios um mistério do velado no revelado.  

    Nunca me botei a olhar por buracos de fechadura, por frestas de portas ou janelas entre abertas. Os seios de uma mulher são sua face, seu rosto, suas intensidades, seus gostos e desgostos. Vê-los simplesmente, sem que exista ali o semblante de quem os possui nada mais é do que nada.

    Quando era menino os seios me pareciam duas bolas de gude, quando amadureci tive plena certeza que eram as esferas mais radiantes que um corpo de mulher pode ter. Nunca me passou pela cabeça que os seios estavam lá simplesmente para que pudessem ser usados como um veículo de alimentação. Seria de uma displicência incrível de quem os criou. Sempre me pareceu que o criador desenhou ali frutas. Sendo assim, alguns seios têm formato de pêssegos, outros de morangos, há os que parecem com pêras e os abundantes são uma grande concentração de amoras. Sempre tropicais, os seios são sempre tropicais. Exigem eles uma grande liberdade, um remexer-se, um dançar, um frenesi. Mesmo aparentando frutas de inverno brotam no verão, é essa a estação. A sua estação.

    As mulheres carregam seus seios como quem carregam suas existências. Acredito que lá dentro trazem bilhetes de antigos amores, histórias de quando deixaram de ser meninas, portas que se fecharam e arco-íris que se fotografaram. Neles estão as marcas dos afetos, dos carinhos, de mãos que mesmo rudes foram delicadas e de mãos que mesmo querendo ser delicadas foram rudes. Geograficamente se encontram lá em cima, a frente, algum espaço primeiro de todo encontro. Os seios abraçam muito antes de todo o corpo. Quase como um sensor – isso se perderá, isso ficará em meus seios por uma eternidade.

     Diante de seios homens viram meninos. Diante de seios meninos viram homens. Mesmo já conhecidos, algo fala neles e são essas palavras que os tornam sempre outros. Outros como nunca vistos.

  • criado por  srbazetti criado por srbazetti
  • Postado em 11:21:18

12.02.07

Árvore

Árvore.

      Um buraco. A semente vai ficar lá até poder vencer a terra. Nesse período ela terá que desenvolver raízes, maturidade e amor. Terá trabalho, se sacrificará, tudo para sair da escuridão e poder ver a luz, o horizonte, os olhos do mundo.

     O vento bate nas folhas do livro e corre a marcação da página. O vento bate nas palavras e corre para mais adiante o que deveria ser dito. É sempre assim, sempre tudo pode ficar para amanhã. Mas, amanhã chegará. Mais cedo ou mais tarde amanhã chegará.

     Ela tem olhos de boneca, pele de porcelana e um andar com calda de sereia. Outro dia era outro dia e não lembrava mais dele. Nem sabia como ela era da primeira vez em que apareceu. Era menina, eram meninos. Lembrava do mar. O mar estava por perto, sempre esteve bem perto deles. O mar de verão, o mar de ano novo, o mar que ainda não viram juntos.

     Se não tiver cuidado morrerá, mesmo depois de ter saído da terra. Então aparece os primeiros brotos. As pequenas folhas que sorriem com o molhar da mangueira. Os dedos que sentem a pele verde. Terá que se dar atenção para que as formigas não tentem devorá-la. O inverno rigido também é perigoso, também pode causar danos irrecuperáveis ao seu caule ainda frágil e indefeso. Vasto o caminho que leva a permanência. Ainda e por muito será equilibrista da sua própria natureza.

     O feiticeiro uma hora prova do seu próprio feitiço. Naqueles meses vivia angustiado, alinhavava desculpas, procurava-a e procurando-a mais se perdia. Perdia-se no seu desejo de ter só mais um instante. Um instante daquela conversa com tantas besteiras, mas com tantas coisas em comum. Um tempo que ficava. Um tempo que conspirava para eles, um tempo que não passava. Um tempo congelado de chá na cozinha, de elogios discretos e um medo. Medo do que? De que nessa novela ele pudesse terminar como seu amigo. Que amigo. Mas, sabia que em algum tempo seria um tempo de ganhar ou perder. Teria que dizer que amava-a.

       Existem estufas. Elas imitam as condições ideais e as orquídeas mesmo fora do seu habitar podem se reproduzir. Não é o mesmo. Ninguém no supermercado perguntará se ela foi cuidada, protegida e acompanhada na sua beleza, mas então porque as orquídeas roubadas do jardim do vizinho tem tanto mais valor? Todas as manhãs ele as agoa, como se banhasse deusas.

       Naquela noite vênus passava pela lua de Leão e ele roubou um beijo dela. Ela não soube como reagir, era menina, eram meninos, quando se conheceram. Só pensou no a-mar.

  • criado por  srbazetti criado por srbazetti
  • Postado em 10:51:36

Belo Dia

Belo dia. Belo dia não é quando não chove, é quando o teu sol entra pela porta. Belo dia não é quando as ondas do mar fizeram as pazes com a areia permitindo o banhar, na verdade belo dia é quando entras com tua calmaria tornando todo coração um navegar. Belo dia com água mineral ou chimarrão. Belo dia ouvindo Djavan ou Flamenco. Belo dia comendo strougtho ou quindim. Belo dia com tomate caramelizado com sorvete de manjericão ou mil folhas. Belo dia vendo Godhar ou novela. Belo dia de sapatos ou tenis. Belo dia quando o cobertor, o lençol, a cama podem ser dispensados. Belo dia vendo os meninos saírem para passearem a cavalo ou quando se folheia revistas enquanto ela termina de se arrumar. Belo dia quando se sente o perfume das primeiras rosas que vão crescendo no jardim ou o perfume familiar que também participa da história do filme que já vai começar. Belo dia que se imagina, se cria, se faz planos e mesmo não acreditando em horóscopo ele diz que será um belo dia para os negócios, para saúde e no amor. Colocar as cartas na mesa. Ter cartas na manga para ir podendo jogar. Antes Truco era jogo de Turco. Agora sei que Truco e Turco não tem muita coisa haver. Os velhos ficam mais velhos. Os mais novos ficam mais velhos. Os sonhos são sempre os sonhos, eles não tem idade. Belo dia não é a inexistência da saudade, é quando o que partiu então chegou. Belo dia não é imunidade a falta, porque a falta é simplesmente um vagão que descarrilhou. Belo dia é a chegada, porque na chegada lá estará o seu rosto que agora, surpreendentemente, pode ser visto pelo olho mágico. Belo dia não é o inesperado convite, é a noite que os lábios se encontraram e o beijo saiu. Belo dia que o pneu não furou, que o cabelo ficou exatamente como deveria ter permanecido. Belo dia que o espelho foi aliado e não adversário. O ponto de equilibrio e o ponto de mutação. O apimentado e o insonso. Algumas vezes deixamos passar do ponto ou nos apressamos. Deve se dar o mesmo com você, tanto uma coisa quanto a outra, me atormentam. Belo dia não é o paraíso, não é o céu. Belo dia é um inferno de tão bom. Tem horas que temos a sensação que não há mais ferramentas para serem utilizadas. Chaves disso e chaves daquilo e os vazamentos continuam os mesmos. A água jorra mesmo com as torneiras estando fechadas. Os olhos parecem fazer pouco caso dos registros e as lágrimas correm. Nossas vidas parecem Óperas, estão sempre precisando de concertos. Entenda como quizeres. A música também nos trás tantos consertos. Belo dia é andar nas nuvens, belo dia é esquecer do que os outros pensam, belo dia é andar no mundo da lua, belo dia é fazer compras, belo dia é chutar o balde ou o pau da barraca, belo dia é cometer uma insensatez. Belo dia que tem apenas 24 horas, mas desejavamos e até faríamos qualquer coisa para que não se acabasse mais.
  • criado por  srbazetti criado por srbazetti
  • Postado em 10:40:03

Belo Dia

Belo Dia.

Belo dia não é quando não chove. É quando teu sol entra pela porta.

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  • Postado em 10:32:12