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Platonicidades
Basta-me vê-la. Dou ação de graças que sei o seu primeiro nome. Quem não viveu um grande amor que não se sabia nem onde encontrá-lo, que não se tinha se quer o seu endereço para enviar uma carta anônima. Um grande amor de sobrenome velado, um grande amor de destino velado, um grande amor com uma vida velada. Quem não viveu um grande amor que como do nada surgiu e pelo nada surpreendentemente poderia entrar pela porta.
Ligasse da rodoviário dizendo que tinha chegado. Um amor que esperávamos anciosamente um sinal, um telefonema, um escrito nos vidros do carro, um cartão de visita embaixo da porta. Então daí poderíamos nos permitir as coisas mais impertinentes e loucas. Nós loucos de amor pela rua, nós loucos de amor no Ibirapuera, nós loucos de amor na Redenção, nós loucos de amor na Lagoa. Sair atrás desse amor no guia telefônico, ir à lugares esperando esbarrar coincidentemente com ele.
E o amor ali sentado, a nossa espera, no nosso aguardo. Um encontro clandestinamente marcado pelos anjos. Desistir de compromissos e permanecer mais tempo no trabalho, pois ele poderia passar embaixo da nossa janela. Um amor que os encontros mais reais foram em sonhos, os beijos mais reais foram em sonhos, as declarações mais reais foram em sonhos. Quantos pecados aquele despertador cometeu com o nosso amor. Os tempos de hoje são tão hipermodernos, tão alucinantes, mesmo em eras de contatos virtuais, são acessos com necessidade de tantas construções. Há tão pouco espaço na sociedade do ficante, do para agora, do imediato, dos interruptores, onde o enter e o delete são acionados com tanta facilidade. É tanta gente regida pela lei de Maomé, ver para crer ou crer para ver. Qualquer coisa do genêro, mas um genêro sempre definitivo, descimal, minuciosamente controlado, estatisticamente comprovado.
Terapeutas, marxistas, liberalistas, weberianos, estruturalistas, hipocondriacos, realistas, concretistas, racionalistas, imperialistas não toque nesse meu amor. Deixem-nos viver nossas platonicidades.
Desde pequeno gostei de seios. Não por inveja, mas porque me causavam curiosidades. Algumas vezes imaginei que pudessem ser um incomodo. Outras vezes pensei em entretenimento, mas na maioria delas sempre vi como beleza. Era nessa beleza que curiosamente sempre cuidei de canto de olho quando as mulheres se debruçavam nos balcões, quando usavam blusas brancas, quando seus sutiãs eram um número a menos e seus seios estavam lá como Pão de Açúcar. E quando chovia. A chuva dá aos seios um mistério do velado no revelado.
Nunca me botei a olhar por buracos de fechadura, por frestas de portas ou janelas entre abertas. Os seios de uma mulher são sua face, seu rosto, suas intensidades, seus gostos e desgostos. Vê-los simplesmente, sem que exista ali o semblante de quem os possui nada mais é do que nada.
Quando era menino os seios me pareciam duas bolas de gude, quando amadureci tive plena certeza que eram as esferas mais radiantes que um corpo de mulher pode ter. Nunca me passou pela cabeça que os seios estavam lá simplesmente para que pudessem ser usados como um veículo de alimentação. Seria de uma displicência incrível de quem os criou. Sempre me pareceu que o criador desenhou ali frutas. Sendo assim, alguns seios têm formato de pêssegos, outros de morangos, há os que parecem com pêras e os abundantes são uma grande concentração de amoras. Sempre tropicais, os seios são sempre tropicais. Exigem eles uma grande liberdade, um remexer-se, um dançar, um frenesi. Mesmo aparentando frutas de inverno brotam no verão, é essa a estação. A sua estação.
As mulheres carregam seus seios como quem carregam suas existências. Acredito que lá dentro trazem bilhetes de antigos amores, histórias de quando deixaram de ser meninas, portas que se fecharam e arco-íris que se fotografaram. Neles estão as marcas dos afetos, dos carinhos, de mãos que mesmo rudes foram delicadas e de mãos que mesmo querendo ser delicadas foram rudes. Geograficamente se encontram lá em cima, a frente, algum espaço primeiro de todo encontro. Os seios abraçam muito antes de todo o corpo. Quase como um sensor – isso se perderá, isso ficará em meus seios por uma eternidade.
Diante de seios homens viram meninos. Diante de seios meninos viram homens. Mesmo já conhecidos, algo fala neles e são essas palavras que os tornam sempre outros. Outros como nunca vistos.
Árvore.
Um buraco. A semente vai ficar lá até poder vencer a terra. Nesse período ela terá que desenvolver raízes, maturidade e amor. Terá trabalho, se sacrificará, tudo para sair da escuridão e poder ver a luz, o horizonte, os olhos do mundo.
O vento bate nas folhas do livro e corre a marcação da página. O vento bate nas palavras e corre para mais adiante o que deveria ser dito. É sempre assim, sempre tudo pode ficar para amanhã. Mas, amanhã chegará. Mais cedo ou mais tarde amanhã chegará.
Ela tem olhos de boneca, pele de porcelana e um andar com calda de sereia. Outro dia era outro dia e não lembrava mais dele. Nem sabia como ela era da primeira vez em que apareceu. Era menina, eram meninos. Lembrava do mar. O mar estava por perto, sempre esteve bem perto deles. O mar de verão, o mar de ano novo, o mar que ainda não viram juntos.
Se não tiver cuidado morrerá, mesmo depois de ter saído da terra. Então aparece os primeiros brotos. As pequenas folhas que sorriem com o molhar da mangueira. Os dedos que sentem a pele verde. Terá que se dar atenção para que as formigas não tentem devorá-la. O inverno rigido também é perigoso, também pode causar danos irrecuperáveis ao seu caule ainda frágil e indefeso. Vasto o caminho que leva a permanência. Ainda e por muito será equilibrista da sua própria natureza.
O feiticeiro uma hora prova do seu próprio feitiço. Naqueles meses vivia angustiado, alinhavava desculpas, procurava-a e procurando-a mais se perdia. Perdia-se no seu desejo de ter só mais um instante. Um instante daquela conversa com tantas besteiras, mas com tantas coisas em comum. Um tempo que ficava. Um tempo que conspirava para eles, um tempo que não passava. Um tempo congelado de chá na cozinha, de elogios discretos e um medo. Medo do que? De que nessa novela ele pudesse terminar como seu amigo. Que amigo. Mas, sabia que em algum tempo seria um tempo de ganhar ou perder. Teria que dizer que amava-a.
Existem estufas. Elas imitam as condições ideais e as orquídeas mesmo fora do seu habitar podem se reproduzir. Não é o mesmo. Ninguém no supermercado perguntará se ela foi cuidada, protegida e acompanhada na sua beleza, mas então porque as orquídeas roubadas do jardim do vizinho tem tanto mais valor? Todas as manhãs ele as agoa, como se banhasse deusas.
Naquela noite vênus passava pela lua de Leão e ele roubou um beijo dela. Ela não soube como reagir, era menina, eram meninos, quando se conheceram. Só pensou no a-mar.
Belo Dia.
Belo dia não é quando não chove. É quando teu sol entra pela porta.