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De-Vir
Todas as noites ela pedia um escrito para ele. Um escrito que falasse da sua pele. Um escrito que dissesse da sua intimidade. Um escrito para sempre, com todo amor. Um escrito plantado, incorporado. Um escrito feito das horas de seu De-vir.
Várias vezes ensaiou aqueles ensaios. Nunca os concluiu.
As palavras que iam saindo no papel não compunham nem um resquício das horas que passavam debaixo dos lençóis. Para cada vir lá estava ele ancioso para o próximo De-vir.
Pérola.
A formação das pérolas se dá a partir do contato de algum material estranho que invade o seu organismo. O amor tem se dado assim dentro de nós.
Quando nos damos por conta aquele grão de areia se põe a nos incomodar. Um incomodar cheio de prazer. De bobagens que vão saindo pela boca como as mais verdadeiras declarações. Bobagens que nos tornam frágeis, vulneráveis, sedentos de uma bebida que só aquele outro, nenhum outro, saciará a nossa sede. Porque o prazer num corpo em solidão ao iniciar é o abismal.
Mesmo que a luz se apague aquela claridade vai ficando ali, mesmo que os olhos se entreguem para essa morte temporária que é o sono, o sonho mantém esse universo encantado ali. Mesmo que Descartes diga que não, o sentir vai se instalando ali.
A pérola vai se formando. Aquela riqueza que é construída de muita sutileza, de uma beleza visível e invisível, de portas que falam e de outras que se calam. Uma hortelã, um chocolate quente, um café e uma janta. Uma janta muito simples de verduras, um pão muito singular como o árabe, um beijo muito doce. Ainda não haveria de ter o sexo, só a forma mais primitiva de prazer que é proteger e se sentir protegido.
Não era necessário nenhum enfeite, porque se fazia no sorriso, no gracejo, no pequeno dedo que caminha sobre os lábios. Queremos tantas confissões. Quando as confissões nunca se abrandam. Ficam brincando como luzes de farol num fazer e desfazer. Deveríamos querer menos, assim quem sabe teríamos tempo para perceber mais. Angustia-me ver muito pouco com olhos tão perfeitos. Talvez seja uma angústia coletiva. Seja a tua também e dos outros que virão para nos suceder. É necessária urgentemente uma alfabetização para o olhar.
As pérolas de melhor qualidade encontram-se no Golfo Pérsico, na Índia e Sri Lanka, na Austrália e na América Central e as pérolas cultivadas são produzidas em larga escala no Japão. Mas desta pérola que falo, nasce quando o chocolate vai de uma boca até a outra, quando é possível que os cobertores caiam e mesmo assim o calor permaneça. Essa pérola que me refiro é a que se inscreve no corpo, nos corpos. Na felicidade que pode ser produzida em nós apenas produzindo felicidade no outro. Não requer mais explicação da pérola que me refiro, mas insisto que essa pérola não se torna cara pela sua qualidade, mas pelos enormes sacrifícios que são infligidos entre o caminho que há em se ir abandonando o medo para se viver à veracidade do contido.
A pérola pode ser usada em "poções" do amor e os séculos trarão para o presente o passado que estava dormindo. Porque nada na pérola ficará vulgar. A inocência protege a pureza e não é o que se faz que nos torna prosaicos, mas sim o agir sem natureza.
Creme, dourada, verde, azul e negra.
Nada mais naquela pele. Tudo naquela cor que se despreguiçava. Naquela mala que tantas vezes foi feita e desfeita. Naquele dia que namoraram e que mais uma vez namoraram e que quando pensavam ter cansado de namorar é que podíam ver o quanto suas pérolas se enamoravam.
A tarde ia derrubando gotas de orvalho nas costas das folhas. Tinha alguma canção. Minto, nesta altura eram a canção.
Corpo de Caneta.
Quando menos esperava tocava nela. Trazia seu corpo para junto de seus dedos. Fina, desenhada, elegante, séria até que acariciada. Não acordava-a de madrugada para manterem diálogos, mas em algumas noites isso era inusitado. Nem dormiam.
Sua sabedoria era impressionante. Sempre que requisitada agia ponderadamente, mas se tomada de sobressalto era de grande dificuldade controlar o volume – da voz, do sorriso, da dose menos homeopática sobre o alheio.
Dotada de um físico totalmente gracioso sentia-se bem em cometer pequenos flagelos em sua estima, em sua inteligência, em sua segurança. Estimava em si, ou estimaria que os outros encontrassem nela um espírito cáustico. Mas mesmo no auge da sua ironia e acidez, era doce e isso, mesmo que não percebesse tão claramente era o seu trunfo.
Devia deixar a França pela Espanha, ir de trem até Marselha, corresponder-se com Gaudi e beijar-se com Camille Claudel. Não que a sua construção fosse uma desconstrução. É que sempre vivia esse embora-voltar. E isso dava aos seus quadris um expressionismo moderno, mas com curvas do barroco clássico.
Ele juntou-se ao círculo de seus admiradores. Desejava ser mais admirador do que os outros, desta forma também seria admirado por ela. Ficava embaraçado por sua tinta fresca, seu excesso de sentido, de hiper-sensibilidade. Tatuagem, estigma, marca, sinal, seu corpo era um corpo feminino. E essa fêmea era a loucura dele, o seu sanatório, a sua embriaguez. A sua santa endemoninhada perdição.
Isto dela estar lá e ele estar aqui incitava um emaranhado que talvez virasse novelo para uma manta que mantivesse quente para a eternidade aquele bom prato de sopa que tomaram juntos.
Rios.
Os rios, os nossos rios estão estressados. Esses que correm fora de nós e esses que correm dentro de nós. A pergunta é, que curso estamos tomando? E já não temos resposta para isso. Temos que achar as planícies de decantação. Sander Machado e Bledow.
Expectativa
Então veio com aquela graça, sua beleza um avião.
Desceu temendo o que era, o que é e o que poderia vir a ser. Animou-se quando pode vê-lo. Ele estava lá e isso antes de ser um bom ou um mau sinal era um acontecimento. Sempre é melhor lidar com o real do que com o imaginário.
O que é a expectativa se não o recordar de algo que foi um bem passado e que pode se repetir e voltar a ser um bem novamente presente? Estava ali a recordação do último beijo e os próximos que poderiam ser muito melhores, estava ali o passado do cheiro que dançava sobre o quarto e que poderia bailar com muito mais harmonia, estava ali o passado dos corpos se tocando, transpirando, se alimentando e que poderiam jantar-se, almoçar-se e tomar café como em um banquete.
Ela estava ali e ele estava ali. Estavam os dois com suas expectativas às 3 horas da manhã de um vôo atrasado, mas que enfim tinha chegado.